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Coluna do Mazzarino

11/03/2017 12:35:10

Flores para os leitores
 
Cassiano Candioli, Elvira Hauschild, Roberto Oliveira, Lucilene do Nascimento, Ilvo Pott e Edel Kohl.
 
 
“Todo o delito que não se converte em escândalo não existe para a sociedade.” (Heinrich Heine, poeta alemão)
 
Crônica
 
Qual é o teu cartaz?
 
Estamos em transição. Há um desconforto no ar. Eu, você, o vizinho; todos nós estamos protestando. Gritando, rindo, ou em silêncio, há um desalento em trânsito.
 
Então, nas redes, resumo digital do pensar cotidiano, da dita sociedade civilizada, prosperam as placas, frases, cartazes, conceitos, toques, reflexões sobre alguma coisa.
 
Este “alguma coisa” daria um seminário de três dias e geraria uma nova reflexão: “Menos seminários, mais vida” ou algo parecido.
 
Durante o Natal de Estrela, em dezembro,  encontrei nas margens do Rio Taquari, ao lado do Bar da Escadaria, o cartaz da foto, que aqui publico, cuja frase é: “Não lhe compete julgar a realidade que você não vive”.
 
São os pontos de vista saindo das redes e invadindo as ruas num sentindo não só verbal, mas também impresso. 
 
Numa galeria de arte, em Montevideo, converso com Marta Lopez Bengochea. Eu pergunto se esta crise afetou o mercado da arte. Ela respondeu que este é o mais duro momento já vivido. Destacou que o mundo está em transição. E fez um alerta/desabafo: “A crise de educação é maior que a crise econômica.” Seguimos conversamos e ela me deu um catálogo de telas do artista Gustavo Lara, sob o titulo “El desatendido mundo de lo invisible”.
 
O invisível, por estar desatendido, está se materializando, avançando e crescendo. Precisamos de mais educação para entender estes processos. No latim educare significa ‘conduzir para fora’, ou seja, preparar as pessoas para o mundo.
 
E os mundos, internos e externos, estão desatendidos em busca de decifração. E este vácuo amplia as crises e aumenta os cartazes.
 
Em São Paulo, o prefeito João Dória decidiu melhorar a vida da cidade interferindo nas pichações e grafites. A ação dele provocou diversas manifestações e muitas outras pichações e grafites. Onde isto vai dar só saberemos lá na frente. São desabafos em busca de decifração.
 
A tua frase, a tua placa, o teu mantra está na ponta da língua.  É uma síntese para a resposta da pergunta popular de algumas rodas: “Qual o teu CTG?”. Ou então, qual o teu time? 
 
Já que derivamos para a cultura gaúcha aqui relato o que me contou o saudoso apresentador Nico Fagundes. O cantor Mano Lima foi se apresentar no programa Galpão Crioulo. A diretora foi perguntar qual era a música que ele ia cantar e ele, com os olhos esbugalhados, respondeu: “Como é que eu estou neste corpo...?” Deu confusão! A diretora entendeu que era uma “cantada” deselegante. Sim, um ruído de comunicação. Mundos a serem decifrados.
 
No Dia Internacional da Mulher, semana que agora vivemos, os exemplos foram diversos. Placas, cartazes, postagens eram desabafos, sentimentos emergindo de úteros, corações e almas.
 
É de Bertold Brecht, dramaturgo alemão, o verso: “Todo mundo chama de violento a um rio turbulento, mas ninguém se lembra de chamar de violentas as margens que o aprisionam.”
 
Cartazes, de beijos ou de tapas, de flores ou de tiros,  estão enfeitando o mundo digital e a vida real. Considero tudo fantástico. Sou de um tempo que ninguém tinha opinião e quem a tinha era fuzilado. Agora, tudo virou um supermercado de teses, onde duas marcas multinacionais  predominam: os contra e os a favor.
 
Desta conversa de vários olhares e citações, encerro com a frase do rapper paulista Mano Brown: “Discurso é corda para se enforcar!”. Então, muito cuidado com as placas, teses e frases. É da Esfinge de Gizé, guardiã das pirâmides do Egito, a secular frase: “Decifra-me, ou te devoro!”
 
Leia nosso NG: http://jornalng.com.br/pageflip/Main.php?MagID=1&MagNo=267 Página 23