Estrela

Escrita como meio de se encontrar

Jandiro Koch conta os desafios de escrever livros voltados ao tema gênero

19/07/2019 - Estrela

Créditos da matéria: Ana Caroline Kautzmann

Com uma escrita pautada na questão gênero, Jandiro Koch lançou quatro livros. Formado em História e pós-graduado em Gênero e Sexualidade, aborda as experiências que envolvem a sexualidade e seu tabu no Vale do Taquari e os desafios que enfrenta desde que buscou, nos livros, um refúgio para situações vividas. Para ele, a questão LGBTQI+ é um gatilho para falar de e com todos os grupos.“Tem aquele pensamento de que LGBT escreve apenas para LGBT... Uma fala que já ouvi várias vezes. Como se hétero escrevesse só para hétero e negro só para negro, o que não faz sentido nenhum.”

Nascido em Arroio do Ouro, Jan, como gosta de ser chamado, iniciou cedo o contato com os livros. Na infância se sentia deslocado dos valores permitidos na comunidade e conta que vivenciava conflitos internos que não eram explicados.“Você leva um susto quando descobre que muitas coisas que sente e que acha que são naturais - como gostar de meninos -, não são vistas pela sociedade como algo desejado. Isso me fez ir aos livros para buscar informações.” Formado em magistério, Jan mudou-se para o Centro de Estrela, foi aprovado em um concurso da prefeitura, onde permaneceu por dez anos.

Entrevista

Jornal NG: Qual a importância dos livros e a escrita em sua vida? E quais os desafios que encontrou?
Jandiro Koch: Chegou um momento em que eu percebi na leitura a possibilidade de recolhimento, ou seja, se essa sociedade não me quer, vou me recolher e ficar com os livros e percebi, também, que eles tinham uma função social, porque, pela palavra, através da escrita, você consegue dialogar de alguma forma com pessoas dispostas a conversar. Um pouco antes de entrar na universidade para fazer o curso de História eu percebi que tinha uma possibilidade de escrever na imprensa. Com isso eu consegui estabelecer um diálogo com a comunidade, que até hoje é muito fechada para algumas questões. Não é fácil você querer conversar sobre coisas que ela não gosta muito de debater. Se eu fosse um profissional voltado ao mercado, que quer vender livros e fazer dinheiro, eu teria que desistir disso, porque esses temas incomodam e mexem com a narrativa do Vale que, na minha opinião, é fantasiosa.

NG: O tema gênero, principalmente LGBTQI+, impede de conseguir apoio financeiro para publicação?
Jandiro Koch: O capitalismo tem muitas problemáticas, mas ele é o sistema no qual todo mundo vive. Então eu acho que se você fizer uma negociação, você consegue aliar patrocínio com uma escrita de função social, isso em grandes centros. No interior, muito difícil, a não ser que seja uma escrita maquiada. O que acabamos fazendo é o uso da editora independente, porque conseguir se inserir em um grande mercado é muito difícil, principalmente quando você fala com uma comunidade local, que não interessa à nível nacional.

Jornal NG: Pensa em lançar mais algum livro?
Jandiro Koch: O Vale do Taquari é singular na questão de gênero, bem como muito engessado e sem amparo na área cultural. A vontade existe, de lançar vários, mas é muito difícil. A maioria dos escritores tem uma atividade simultânea, que é a fonte de renda e que não é a escrita. Então você ter tempo para correr nessa sociedade que é competitiva, pensar, refletir e escrever, é difícil. Acaba minando um pouco a criatividade. Quem consegue manter uma constância de publicação tem essa pulsão por escrever, porque não consegue entender sua vida sem fazer isso. Então vejo que os escritores do Vale que persistem, carregam consigo essa necessidade de dizer alguma coisa, mas tem toda uma barreira material para viabilizar esses projetos. 

Livros lançados

O primeiro livro, chamado “(Ir)reflexões & Ensaios”, foi lançado em 2011. “Nesse eu tinha um estilo panfletário, não tinha muito pudor e restrições. Pessoalmente tenho saudade dessa época”, conta. O segundo, “Sexo, norma e desvio: defloramentos, doenças venéreas, homossexualidade e prostituição na história de Estrela e de outras cidades sul-riograndenses, do séc. XIX à atualidade”, lançado em 2012, conta com diversos trechos do Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) de Jandiro. “Eu encontrava muitas portas fechadas porque as pessoas não queriam falar sobre a sexualidade no Vale do Taquari, então quando eu abandonei o TCC, fiquei com pena de deixar tudo em casa, então utilizei o material no livro e publiquei”, conta.

Jandiro diz que o a escrita mais afiada, no ponto de vista dele, surgiu a partir do terceiro livro, em 2017, “Um baile misturado: (sobre)vivências LGBT e negras no Vale do Taquari”, um projeto feito em parceria com o Núcleo da Diversidade da Univates, que logo esgotou. “Neste eu já consigo estabelecer um diálogo, dizer o que eu quero sem agredir ninguém. Consigo criar empatia com a comunidade, trazendo assuntos que são de difícil trato”, explica. Em 2019, veio o quarto livro, “Sociedade à Espreita”. “O foco sai da comunidade LGBT e tento analisar quais discursos estão nos jornais sobre esse público”, diz.


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